Portugal
"Inaceitável que o grande beneficiário de tudo isto continue a escapar incólume"
2024-02-24 13:30:00
"A corrupção, a adulteração da verdade desportiva em Portugal é gigantesca"

O futebol português, sempre envolto em paixões e rivalidades intensas, encontra-se novamente sob os holofotes, desta vez com o empresário César Boaventura no epicentro de uma controvérsia que abala as fundações éticas do desporto nacional.

A sua recente condenação por tentativa de influenciar jogadores do Rio Ave em 2016, num alegado esquema para favorecer o Benfica, desencadeou debates acalorados e levantou questões cruciais sobre a integridade do desporto rei.

A decisão do Tribunal de Matosinhos foi contundente, condenando Boaventura por tentativa de "compra" de jogadores do Rio Ave, numa ação que, segundo a acusação, tinha como objetivo favorecer o emblema encarnado, clube com o qual o empresário tem ligações conhecidas. No entanto, Boaventura nega veementemente as acusações e já anunciou a sua intenção de recorrer da decisão, alegando inocência.

Esta condenação veio à tona num momento em que o futebol português já enfrenta um intenso escrutínio sobre a sua integridade, com várias investigações em curso sobre alegados casos de corrupção e aliciamento de jogadores. O caso de César Boaventura é apenas mais um capítulo numa saga contínua de controvérsias que abalam a atualidade do futebol português.

"Houve marosca no Aves, no Setúbal. Todos esses clubes foram vítimas e acabaram despromovidos"

No entanto, a polémica não se restringe apenas à condenação de Boaventura. Recentemente, o acórdão do Conselho de Disciplina revelou uma nova denúnica (entretanto arquivada) de um alegado aliciamento, desta vez por parte do empresário João Carlos Pinheiro Paula, também a jogadores do Rio Ave e com o mesmo propósito de favorecer o Benfica.

A reação de Francisco J. Marques, diretor de comunicação e informação do FC Porto, ao arquivamento não tardou a surgir e, numa mensagem publicada na rede social X, enfatizou que 'não combater a corrupção é incentivar os corruptos', apontando para a dimensão considerável de corrupção e adulteração da verdade desportiva em Portugal.

"A corrupção, a adulteração da verdade desportiva em Portugal é gigantesca. Não a combater é um incentivo aos corruptores", começou por escrever o conhecido sócio azul e branco.

"Já sabíamos que César Boaventura tinha tentado corromper a favor do Benfica jogadores do Rio Ave e do Marítimo, agora ficamos a saber que João Carlos Pinheiro Paula fez o mesmo na época seguinte, novamente com o Rio Ave, novamente para beneficiar o Benfica", acrescentou J. Marques.

O dirigente portista destaca também que, além do caso Boaventura, há outros exemplos de irregularidades em Portugal, como nas situações do Aves e do Setúbal, clubes que foram vítimas e que acabaram por ser despromovidos.

"Sabemos também que houve marosca no Aves, que houve marosca no Setúbal. Todos esses clubes foram vítimas e acabaram despromovidos (o Rio Ave já conseguiu regressar à I Divisão)", observou o diretor de comunicação e informação dos dragões.

"Quem não age perante sucessivos casos de adulteração da verdade desportiva só pode ser considerado cúmplice"

A indignação de Francisco J. Marques estende-se à impunidade que parece beneficiar o principal interveniente em todas estas questões, o Benfica. A frustração é evidente nas suas palavras, quando questiona a habilidade de evitar que figuras como César Boaventura não sejam consideradas agentes desportivos, ao passo que, em situações passadas, houve um esforço para considerá-lo como tal.

"Inaceitável os sucessivos arquivamentos, inaceitável que o grande beneficiário de tudo isto continue a escapar incólume. Extraordinário conseguirem que esta gente não seja agente desportivo, porque eu bem me lembro das voltas que deram para me considerarem agente desportivo para me poderem castigar", lembrou o adepto portista.

J. Marques conclui a sua publicação, de forma incisiva, que quem não age perante casos evidentes de adulteração da verdade desportiva só pode ser considerado cúmplice.

"Não há outra forma de o dizer, quem não age perante sucessivos e evidentes casos de adulteração da verdade desportiva só pode ser considerado cúmplice. Doa a quem doer é tempo de não ter medo e agir", rematou o dirigente do FC Porto.